O neurofeedback é uma das abordagens sem remédio mais pesquisadas no TDAH, e os resultados não apontam todos na mesma direção. Quando quem avalia são os pais, que sabem que a criança está em tratamento, os estudos costumam registrar melhora. Quando a avaliação é feita por alguém que provavelmente não sabe quem recebeu o treino, o efeito fica pequeno ou desaparece. Por isso, ele não é considerado tratamento de primeira linha.
Por que o desenho dos estudos importa
Nos ensaios clínicos, um grupo recebe o neurofeedback e outro serve de comparação. Esse grupo de controle pode ficar em lista de espera, receber outro tratamento ou fazer um neurofeedback simulado, em que a tela não reflete a atividade real do cérebro.
A questão central é o chamado cegamento. Pais que sabem que o filho está em tratamento podem, sem perceber, enxergar mais melhora. A atenção do terapeuta, a regularidade das sessões e a expectativa de mudança também influenciam os sintomas. Esses fatores, chamados de efeitos inespecíficos, aparecem em qualquer tratamento e precisam ser separados do efeito do treino em si.
Outro ponto é a variedade de protocolos. Os estudos usam números de sessões, frequências treinadas e equipamentos diferentes, o que dificulta comparar os resultados entre si.
O que mostrou a revisão mais recente
Em 2025, a revista JAMA Psychiatry publicou uma meta-análise feita para o European ADHD Guidelines Group, grupo europeu que elabora orientações sobre TDAH. Os autores reuniram 38 ensaios clínicos randomizados, com 2.472 participantes de 5 a 40 anos. Os principais achados:
- Nas avaliações provavelmente cegas, o neurofeedback não reduziu de forma significativa os sintomas de TDAH
- Nos estudos com protocolos padronizados e bem estabelecidos, houve melhora pequena
- Entre os testes neuropsicológicos, só a velocidade de processamento melhorou, com efeito pequeno
- O neurofeedback não superou outras opções sem remédio, como treino cognitivo e exercício físico, embora poucos estudos tenham feito essa comparação
A conclusão dos autores foi que não há evidência suficiente para recomendá-lo como tratamento de primeira linha para o TDAH.
Resultados que apontam em outra direção
Outras revisões encontraram sinais mais favoráveis. Uma meta-análise de 2019, publicada no European Child & Adolescent Psychiatry, reuniu dez estudos com crianças que tiveram reavaliação entre 2 e 12 meses depois do fim do treino. Na comparação com grupos sem tratamento ativo, o neurofeedback mostrou efeitos que se mantiveram por pelo menos seis meses, segundo a avaliação dos pais. A medicação teve efeito maior ao fim do tratamento. Os próprios autores apontaram a necessidade de estudos maiores e de melhor controle dos efeitos inespecíficos.
Essas diferenças explicam por que o tema segue em debate. Pesquisadores também tentam descobrir se alguns perfis de pessoas respondem melhor ao treino do que outros.
Onde o neurofeedback entra no cuidado
O tratamento do TDAH costuma combinar várias frentes: informação para a família, orientação aos pais, apoio na escola, psicoterapia e, quando o médico indica, medicação. O neurofeedback pode compor esse plano em alguns casos, sem substituir as outras partes. Ajustes na rotina em casa e na sala de aula continuam necessários.
A decisão é individual e leva em conta idade, intensidade dos sintomas, outras condições associadas, preferências da família, tempo disponível e custo. Como o treino exige sessões frequentes por semanas, a rotina da família também pesa na escolha. Quem já usa medicação deve manter o acompanhamento médico, e qualquer mudança de dose ou suspensão é decisão do médico.
Antes de decidir
- Defina com o profissional um objetivo concreto, como reduzir esquecimentos na escola ou melhorar a organização das tarefas
- Combine como a evolução será medida, de preferência com informações de mais de uma fonte, como pais e professores
- Estabeleça um ponto de reavaliação e o que fazer se não houver melhora
- Pergunte como o treino se encaixa no tratamento que já está em andamento
Mais detalhes sobre como o método funciona estão na página de neurofeedback.
Fontes
- Neurofeedback may not be effective in reducing ADHD symptoms (King's College London)
- Neurofeedback offers minimal improvements for ADHD symptoms (PsyPost)
- Sustained effects of neurofeedback in ADHD: a systematic review and meta-analysis (Van Doren et al., 2019)
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional.




