Disgrafia e disortografia afetam a escrita, mas em pontos diferentes. Na disgrafia, o problema está no traçado: a letra sai irregular, difícil de ler e cansativa de produzir. Na disortografia, a letra pode até ser caprichada, mas a criança erra a grafia das palavras de forma persistente, mesmo depois de ensinada e corrigida.
Disgrafia: quando o traçado é o problema
Um estudo publicado em 2013 no Jornal de Pediatria, feito com 630 alunos do 6º ano da rede pública, descreve a disgrafia motora como uma dificuldade de coordenação motora fina para escrever as letras. A criança fala e lê, mas a forma das letras e a qualidade da escrita ficam comprometidas. Nesse estudo, o sinal mais frequente foi a linha que sobe, desce ou flutua no papel.
Sinais que costumam aparecer:
- Letras de tamanhos e formatos muito irregulares
- Espaçamento confuso entre letras e palavras
- Escrita que não acompanha a linha do caderno
- Jeito incomum de segurar o lápis ou força excessiva na pegada
- Cansaço, dor ou cãibra na mão depois de pouco tempo escrevendo
Às vezes, a própria criança não consegue ler o que copiou do quadro, o que atrapalha o estudo em todas as matérias.
Disortografia: quando a dificuldade é a ortografia
O Grupo de Estudo e Pesquisa em Escrita e Leitura (GREPEL), da USP, descreve a disortografia como um transtorno específico da aprendizagem com prejuízo na escrita, ligado à ortografia, à gramática e à redação. Ele pode ocorrer em pessoas com capacidade intelectual normal.
Entre os sinais descritos pelo grupo:
- Trocas, omissões e inversões de letras que persistem
- Confusão entre sons parecidos, como em "faca" e "vaca"
- Palavras juntadas ou separadas no lugar errado
- Escrita muito apoiada na fala, do jeito que se pronuncia
- Dificuldade para guardar as regras ortográficas
- Dificuldade para produzir textos e para usar pontuação e letras maiúsculas
Errar ortografia faz parte de aprender a escrever. O que chama atenção é a persistência dos mesmos erros quando a criança já teve tempo e ensino suficientes para superá-los.
Os dois quadros podem aparecer juntos
Uma criança pode ter disgrafia sem disortografia, o contrário, ou as duas ao mesmo tempo. Também é comum que a escrita difícil venha acompanhada de dificuldade de leitura. No estudo do Jornal de Pediatria, a dislexia foi a co-ocorrência mais frequente entre os sinais de alerta observados. Por isso, quando a escrita preocupa, vale observar também os sinais de dislexia.
Quais profissionais costumam participar
A investigação e o acompanhamento costumam envolver profissionais de áreas diferentes, cada um olhando para uma parte do problema:
- Psicólogo ou neuropsicólogo: avalia atenção, memória, linguagem, funções executivas e o perfil cognitivo, e ajuda a diferenciar de outros quadros
- Fonoaudiólogo: trabalha a relação entre sons e letras, que é a base da ortografia
- Terapeuta ocupacional: cuida da coordenação motora fina, da pegada do lápis e de adaptações para a escrita
- Psicopedagogo: olha para o processo de aprendizagem e para as estratégias de estudo
- Professor: observa a escrita no dia a dia e aplica as adaptações combinadas
O Child Mind Institute, centro americano de saúde mental infantil, indica o terapeuta ocupacional para a parte motora da escrita e o neuropsicólogo para as dificuldades cognitivas. Já o GREPEL recomenda que a intervenção na disortografia una o trabalho do fonoaudiólogo ao dos professores.
Para entender quando cada tipo de apoio faz sentido, veja a diferença entre reforço, psicopedagogia e avaliação.
O que ajuda e quando procurar avaliação
Algumas adaptações reduzem o peso da escrita enquanto a criança desenvolve as habilidades:
- Engrossadores de lápis para melhorar a pegada
- Uso de teclado em anotações e trabalhos mais longos
- Respostas gravadas ou ditadas por voz
- Tempo extra em atividades escritas e provas
Procure avaliação quando a letra continua ilegível depois dos primeiros anos de escola, quando os erros ortográficos não diminuem com ensino e correção, ou quando a criança evita escrever, chora ou reclama de dor na hora das tarefas. A avaliação neuropsicológica ajuda a identificar o que está por trás da dificuldade e a orientar a escola.
Fontes
- Martins e colaboradores: Rastreio de disgrafia motora em escolares da rede pública de ensino (Jornal de Pediatria, 2013)
- GREPEL/USP: Disortografia
- Child Mind Institute: Understanding dysgraphia
Este artigo tem caráter informativo e não substitui a avaliação de um profissional.




